Meu irmão me molestou. É assim que minha vida sexual foi afetada

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O irmão de Kat Alexander a molestou quando ela era criança. Ela empurrou seus sentimentos sobre o abuso até cerca de uma década atrás, quando voltou para sua cidade natal e reencontrou o irmão, na casa onda o abuso aconteceu. Foi aí que os sentimentos voltaram, com intensidade. Desde então, Alexander vem trabalhando para encontrar maneiras de navegar a vida com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) – incluindo maneiras de ter uma vida sexual prazerosa.

Nos últimos anos, os americanos têm falado mais abertamente sobre estupro e outras formas de abuso sexual – e os efeitos duradouros que isso pode ter nas pessoas. Várias histórias pessoais e explicações de especialistas detalham para o público as maneiras diversas e cheias de nuances como trauma sexual pode afetar a futura vida sexual de alguém. Pessoas que têm TEPT relacionado a ataque sexual muitas vezes desenvolvem associações negativas com sensações sexuais, e descrevem se fechar, ou desassociar durante o sexo, entre muitos outros possíveis resultados. TEPT também pode levar a perda da desejo sexual ou uma explosão dele.

Ainda assim, a cultura moderna não fala muito sobre como pessoas navegam esses efeitos, e como elas podem encontrar novas fontes de prazer e alívio. Da mesma maneira, não somos muito bons em falar como seus parceiros pode trabalhar com elas para esses objetivos, e superar seu próprio medo de retraumatizar os parceiros. Isso porque, como Tracy Clark-Flory escreveu para o Refinery29 em 2015, pode ser desconfortável mencionar o abuso sexual e prazer sexual na mesma conversa. Para muitos, pode parecer errado olhar para algo além da dor.

Mas não é. Encontrar uma caminho através dos efeitos do trauma sexual para uma vida sexual saudável é, para muitos, um aspecto importante da cura – de retomar o controle do abusador e viver suas vidas. Como não há uma única experiência de vida sexual depois de trauma sexual, não há um guia definitivo para reclamar de volta a vida sexual de alguém. Ainda assim, exemplos de como alguns indivíduos negociam suas vidas sexuais depois de trauma são valiosos. Eles mostram que as pessoas podem desenvolver seu próprio caminho para seguir em frente.

Para oferecer um exemplo assim, a VICE falou com Alexander, fundadora da Report It, Girl, uma plataforma online ajudando “sobreviventes de violência sexual a se recuperar através de narrativa, recursos e comunidade”. Alexander falou com a VICE junto com Dave (que não quis ter seu sobrenome publicado para preservar sua privacidade), o parceiro dela nos últimos três anos e meio, sobre como eles navegam a intimidade sexual.

Kat: Quando eu era adolescente, e especialmente na faculdade, lembro das pessoas saindo com vários caras. Eu me superprotegia, sabendo o que passei. Nos primeiros anos na faculdade, beijei um menino. Eu também tinha muitos sintomas na faculdade de TEPT, mas não sabia que era isso. Eu só sabia que tinha pesadelos e flashbacks.

Enquanto eu chegava aos 20 e poucos anos… Eu não podia conseguir a ajuda que precisava e aquelas memórias traumáticas afundaram ainda mais na minha cabeça. [Em 2009] voltei para minha cidade natal, San Diego, para fazer PhD em saúde pública. Meu pai, que me abandonou quando eu tinha dois anos, morreu de câncer de próstata, então foi como um abandono final. Minha mãe teve um episódio maníaco horrível, e mais uma vez fui resgatá-la. E pela primeira vez em muito tempo, fiquei frente a frente com meu irmão que me molestou, na casa em que aquilo aconteceu. Então tive o que chamo de “perder as rédeas”. Esse casulo que protegia todas essas memórias desmoronou, e tive um surto de TEPT.

Dave e eu nos conhecemos três anos e meio atrás; vamos fazer quatro anos em 30 de abril.

Dave: Eu não sabia nada [sobre TEPT baseado em trauma e como isso afetava a intimidade]. Mas comecei a ouvir muito sobre isso quando começamos a sair. Aprendi muito. Isso surgiu bem no começo.

Kat: No começo, eu disse: “Essa é toda a minha merda, porque se você vai me rejeitar, quero que aconteça o quanto antes. Não quero gastar meu tempo”. Então confrontei a coisa de cara.

Em 2011 mais ou menos, namorei alguém que depois se mostrou abusivo. Então foi muito difícil me abrir.

Dave: Senti compaixão por ela. Ela abordou [sua história de abuso]. Aceitei tudo e seguimos em frente. Ela também compartilhava um pouco de cada vez, então nunca processei de uma vez o que aconteceu com ela. Descobri durante um ano e meio a extensão das coisas.

Kat: Posso falar sobre isso agora sem me sentir completamente amortecida e desassociar. Fiz o trabalho para isso. O que não significa que isso não tem mais impacto pra mim. Ainda há, no fundo da minha mente, aquele medo: “Se eu compartilhar, essa pessoa vai me julgar?” Porque especialmente com incesto – sem querer diminuir a experiência de outras pessoas de abuso com pessoas que não eram da família; não podemos comparar abuso assim – há um grande tabu. Mas ele ficou calmo. Ele foi carinhoso.

Dave: [Noteis os efeitos que o TEPT tinham na intimidade física dela] no começo, talvez na primeira semana saindo com ela. Ela começou a chorar no meio do sexo. E eu fiquei imaginando: “O que está acontecendo?” Você começou a repassar tudo na sua cabeça.

E ouvi a história dela várias vezes nos primeiros meses do nosso relacionamento. Ela sempre retornava a todo o trauma da vida dela, o que foi muito difícil pra mim. Quando você pensa sobre o futuro, apertar o pause e ouvir a história de novo e de novo, talvez várias vezes por semana, você pensa consigo mesmo: “Isso é normal?” Levei uns nove meses para entender que a palavra “cura” pode ser uma coisa constante. Você pode passar os próximos 20 anos tentando se curar. Eventualmente, falamos sobre respeitar o espaço e viver com limites.

Kat: O momento em que eu ficava mais traumatizada quando criança era quando ia dormir. Então logo no começo, eu disse para o Dave não em acordar para ter intimidade, nunca. Era um limite claro, e ele o respeitou 100%.

Dave: São as regras para o envolvimento. E assim que chamo. Sei que ela precisa se sentir conectada [antes do sexo]. Então sim, rapidinhas estão fora da mesa.

Kat: Isso não é totalmente verdade.

Dave: Não é totalmente verdade. Mas tem vezes, depois, que ela diz: “Eu prefiro um pouco mais de preliminares e toque”. Você assimila essas coisas e corrige o curso.

Kat: Pra estar no momento e não me sentir amortecida ou desassociar – tipo, “Ah, sexo, não quero realmente, mas vou simplesmente fazer” – eu vou mais devagar e digo “Olha, eu realmente quero me conectar com você agora”. Ou “Sabe, estou muito cansada e só quero dormir”. Tenho muita consciência do que quero.

Sou fascinada pelo que é o trauma e o que é um ser humano funcional que quer que alguém chupe sua boceta. Se eu não tivesse sido abusada sexualmente, como eu seria diferente?

Dave: Tem momentos em que você senta e diz “Uau, isso vai continuar pra sempre?” É quase como beber ou outros tipos de problema. “Isso vai melhorar ou passar?” Você não sabe.

Mas você dá passos, até se sentir realmente segura comigo. Acho que depois de um mês, comecei a sentir que não estava fazendo algo errado, mas só porque conversamos tanto sobre isso.

Kat: Logo no começo, fizemos muito – chamamos isso de tocar as partes feridas um do outro. Aprendemos como desacelerar esses momentos onde um de nós vai ficar – não gosto de usar a palavra gatilho, porque é uma palavra muito violenta pra mim, então uso a palavra “ativado”. Aprendemos como, primeiro de tudo, só nomear o que estamos sentindo… Agora chegamos num ponto onde, nos melhores dias, será apenas segundos: Vou ler a energia dele e ele lê a minha, e vou dizer “Olha”. E nos olhamos nos olhos e digo “O que aconteceu?”

No começo, lembro que fiz alguma coisa que cruzou um dos limites dele e foi tipo “Nossa, fodi as coisas aqui”. Ele só me contou alguns dias depois. Aí eu disse “Meu deus, desculpa, eu não percebi que tinha violando seus limites. Nunca mais vou fazer isso”.

Dave: Cresci como extremamente introvertido e nunca compartilhava minhas necessidades e sentimentos com ninguém. Tem sido uma experiência estranha de aprendizado, conhecer a Kat, expressar essas coisas. No começo, eu me segurei… Claro, quando alguém compartilha algo tão grande, é tipo: “Sim, meus problemas não são tão grandes, não preciso compartilhar”. Então foi uma via da mão única por muito tempo. Mas ela disse “Se abra”.

Kat: Uma das coisas favoritas que ele faz agora, quando estou chateada ou cansada, ele olha nos meus olhos e diz “Do que você precisa?” Isso muda tudo imediatamente. Nunca tive um parente me perguntando do que eu precisava. Desacelero, faço uma pausa e penso: “Do que eu preciso?”

Dave: Às vezes [no começo do relacionamento] o sexo era normal e fantástico, e às vezes era cercado de mágoa. Mas desenvolvemos sistemas que podem ajudar, e não precisamos mais desses momentos [de desconforto].

Kat: Começamos a morar juntos cerca de um ano atrás. Foi uma grande guinada, compartilhar uma cama o tempo todo. Passei minha vida adulta dormindo sozinha. Na verdade eu estava preocupada com isso, tipo “O Dave vai querer sexo toda noite? Meu corpo ainda não está nesse ponto. Talvez ele queira fazer sexo. Se eu não estiver no clima, vou ter que dizer não mais vezes do que se nos víssemos algumas vezes por semana, e é claramente o momento de estarmos juntos?”

Dave: No começo, a gente se encontrava nos finais de semana e passava de sexta a domingo juntos, nunca saíamos. Nossa frequência sexual estava bem acima da média quando começamos a namorar, o que não é algo que você imaginaria sobre um relacionamento com alguém com essas experiências.

Kat: Ele tem um desejo sexual muito alto, o meu é de médio a alto, especialmente quando não estou estressada com o trabalho.

Dave: Mas quando as coisas estão difíceis e estamos trabalhando quase 14 horas por dia, é normal que a coisa tenha diminuído.

Kat: Tiramos um tempo. Agendamos noites para encontros. E tem uma atração nele, só de como ele é. E com todo o trabalho que tenho feito, sei que posso pedir o que preciso. E sei que ele vai me dar espaço e tudo mais.

Dave: O trauma do estupro e das coisas no começo da vida dela, essas coisas não surgem mais tanto. Elas estão sendo substituídas por coisas, tipo “Você pagou a conta de água?” Vocês moram juntos como um casal. Qualquer desafio que surgir, desenvolvemos uma linguagem melhor em abordar as coisas logo de cara.

Kat: Me sinto muito segura, porque no começo discutimos muito minhas coisas e o que eu precisava para criar esse laço. Eu sentia como se estivéssemos numa zona de guerra. Agora estamos em tempos de paz. Podemos sempre nos lembrar dos limites e camadas.

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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